"Destranscendentalizando o materialismo prático-normativo de Marx"
(Terça, 11-12, às 11h30 - Auditório 02 do PASL)

Resumo:

Chamo de ponto-de-vista materialista prático-normativo, transcendental, aquele ao fundo tanto da concepção histórica como da crítica da economia política de Marx, aquele que Marx deixa ver ou entrever primeiro nas Teses ad Feuerbach (de forma direta mas muito condensada) e na Ideologia Alemã (na primeira seção), bem como no Manifesto Comunista e, de forma acabada mas um tanto velada, nos Grundrisse e no Capital. Trato de mostrar que tal materialismo guarda pontos de contato com o pragmatismo, inclusive o dos nossos dias, tanto quanto diferenças essenciais, que constituiriam justamente seu viés transcendentalizante. Com efeito, o materialismo prático-histórico de Marx pode ser lido como compreendendo seis momentos que se interpenetram e articulam: 1) uma recusa do “empirismo dogmático”, “positivista”, intuicionista-passivo, mentalista-cartesiano, bem como do idealismo subjetivista; 2) uma superação da concepção do mundo e do sujeito como estáticos, exteriores um ao outro, e, logo, possivelmente, o abandono do ponto-de-vista do “espectador” e de fixação objetivista-representacionista do real; 3) uma desqualificação do indivíduo “abstrato” da percepção empirista britânica como “robinsonada”: a ficção do indivíduo como dissociado – descontextualizado - do “conjunto das relações sociais” e de uma “forma de vida social determinada” ou “modo de vida” (Lebensweise); 4) uma crítica do real social como essencialmente cindido, hierarquizado e atomizado pelas “más” relações e práticas sociais imperantes (em que os homens se põem ou são postos), que acarretariam o desdobramento/duplicação do mundo também no plano do conhecimento e do pensamento, na religião e na filosofia; 5) crítica essa sustentada pela dedução/construção de um fundamento forte, de fundo, intramundano mas essencializado, que determina, por necessidade, o rumo da supressão prática da contradição e a restauração (reconciliação) da unidade-solidariedade social “perdida”, com o fim da “autoalienação do homem” - para além do ponto-de-vista da Sociedade Civil Burguesa, de hoje, rumo à Sociedade Humana, Comunista, de amanhã, pela necessidade (lei) e pelo “imperativo categórico” de sua realização. Tudo isso atravessado por 6) um desafio, digamos, de “epistemologia política”, de congruência de pontos-de-vista “epistemológicos”, sobre conhecimento e desconhecimento, com posições na sociedade, com que Marx pretende refutar o ponto-de-vista liberal e sustentar seu ponto-de-vista comunista. O que nos enseja perguntar, alternativamente, por um ponto-de-vista “epistemológico” destranscendentalizado, democrático. Fazemos isso, de um lado, em relação crítica com Marx, questionando os elementos de seu remanescente subjetivismo, mentalista-solipisista, representacionista (materialista burguês, séc. XVIII, se se quiser), subjetivismo esse magnificado (numa hipertrofia da figura do sujeito metafísico) com recurso às categorias do idealismo alemão - elementos esse que merecem ser flexibilizados. E, de outro lado, em diálogo com o debate filosófico contemporâneo, e agora numa relação positiva com Marx, isto é, com o lado prático não transcendentalizante nem essencialista de seu materialismo normativo, procedendo a uma derivação pragmatista-histórica que se afaste da quase redução – de parte da filosofia contemporânea - da ação humana (relevante) à prática linguística, e de contexto a linguagem, com consequências quer “formalistas”, quer “relativistas” e “anti-realistas”, para as quais a remissão a noções como formas de vida, mundo da vida, cultura, contexto, etc., por si sós, tem resultado ser uma débil complementação.


Acontece de 10 a 14 de dezembro de 2012 o III Encontro de São Lázaro, realizado pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, em parceria com o Instituto de Psicologia da UFBA. No dia 10 de dezembro, ocorre a conferência de abertura proferida por Martin Jay, pesquisador da University of California – Berkeley. O Encontro reúne num mesmo espaço as pesquisas de estudantes e professores, da graduação à pós-graduação.
Durante o Encontro, membros do GT Poética Pragmática irão apresentar trabalhos vinculados às suas pesquisas individuais mas com um terreno comum de debate com o grupo. A partir de hoje publicaremos os resumos dos trabalhos que serão apresentados pelos integrantes do Poética. Segue a programação interna do GT Poética Pragmática dentro do Encontro:


Terça (11-12)

Auditório 02 (PASL):

*Sala 05 (PASL):

*Sala 07 (PASL):

Quarta (12-12)

*Sala 09 (PASL)

Quinta (13-12)

*Sala 15 (PASL):

*Sala 13 (PASL):

*Sala 16 (PASL):

*Sala 05 PASL:
- 14h30: Msc. Ilca Menezes, "Emancipação e evolução social"

Breve resumo da proposta teórica do grupo Poética Pragmática


            Numa abordagem, ao mesmo tempo mais ampla e mais sintética, Poética Pragmática é uma posição que centra-se na noção de ação, e em sua dimensão inventiva, a criação.  É herdeira de três linhas contemporâneas de pensamento (e comportamento): Hegelianismo, Pragmatismo e "Tropicalismo". O hegelianismo, nesse caso, compreende a temporalidade da ação humana, sua situação em determinado fragmento do curso histórico. O pragmatismo compreende a contextualidade da ação e é nela que acrescenta o potencial criativo do agir. O "tropicalismo" associa-se à criação e assimilação, entendendo criação como efeito de acúmulos.
                Para nós, a ação humana supõe que o agente não se encontra numa posição isenta, ao contrário, um sujeito inserido em um contexto social (por isso cultural e contingente). Esse seria o contexto elementar de situação no mundo, o Standpunkt. Diante disso, o Poética Pragmática procura responder aos problemas relativos ao conhecimento e à normatividade. Associando o primeiro à comunidade de asserção de conhecimento (científica ou não) e a segunda ao aprendizado e à prudência, para uma conduta sendo iluminada pela experiência. Para a nossa perspectiva a linguagem, através de uma virada pragmático-linguística operada pela filosofia contemporânea, é de grande importância. Com isso a filosofia teria ganhado uma perspectiva intersubjetiva abandonando a filosofia da consciência na medida em que a linguagem promove a ligação entre a perspectiva do sujeito, o mundo da vida e os outros sujeitos.Como consequência  a filosofia perde os fundamentos transcendentais fortes e se torna  mais contingente e ligada ao contexto. Porém, apesar dos ganhos que a atenção com a linguagem teria trazido para a filosofia é preciso tomar cuidado para não reduzir a prática à prática linguística. Para o Poética Pragmática a lida com o mundo material e a criação são formas de se confrontar com o mundo que tem tanta importância quanto o uso público da linguagem e, apesar de não serem formas de ação que procedam em âmbitos separados, não é possível reduzir uma a outra.
O Poética Pragmática, a partir desse terreno de discussão, pretende tratar a filosofia para além da lida com o texto e a compreensão histórica da filosofia (apesar de não prescindir dela), para uma compreensão de questões contemporâneas concernentes ao nosso contexto e nossa época. 

A modernidade filosófica: Habermas contra Hegel

 Texto do Prof. Dr. Ricardo Musse sobre a leitura de Habermas em O Discurso Filosófico da Modernidade da filosofia de Hegel e Kant.

Publicado em: http://boitempoeditorial.wordpress.com/2012/09/06/a-modernidade-filosofica-habermas-contra-hegel/


A modernidade filosófica: Habermas contra Hegel

Por Ricardo Musse*

Em O discurso filosófico da modernidade, Jürgen Habermas elege Hegel como o filósofo paradigmático da modernidade. Kant, considerado tradicionalmente, desde a interpretação hegeliana, como o nome central da modernidade filosófica, é relegado, assim, à condição de mero precursor:
Kant exprime o mundo moderno em uma construção intelectual. Isso significa, porém, apenas que os traços essenciais da época refletem-se na filosofia kantiana como em um espelho, sem que Kant tenha compreendido a modernidade enquanto tal. É somente de um ponto de vista retrospectivo que Hegel pode entender a filosofia de Kant como uma autoexposição da modernidade (Habermas, Der philosophische Diskurs der Moderne, p. 30).
Para alterar a hierarquia tradicional, Habermas elabora uma nova concepção de modernidade. Para tanto, partindo da diferenciação sociológica entre modernidade e modernização, procura restabelecer o vínculo, ausente nas teorias correntes da modernização, entre modernidade e racionalidade. Destaca, assim, as relações internas entre o conceito de modernidade e a maneira como esta compreende a si mesma, inserindo-a no horizonte cultural do racionalismo ocidental.
Segundo Habermas, a modernidade só se percebe como uma época histórica quando, ignorando o modelo das épocas exemplares do passado, adquire consciência da necessidade de extrair de si mesma suas normas. Uma vez redefinida a modernidade a partir da questão de sua autofundação, a ênfase recai sobre o seguinte ponto: como pode a modernidade fundar-se, posto que, para tanto, ela só dispõe de seus próprios meios, só pode remeter-se a ela mesma?
Nesse novo contexto, no padrão determinado pela autoreflexão da modernidade, a filosofia de Kant ocupa um modesto segundo plano. Com o redimensionamento da questão, toda a primazia cabe a Hegel; este teria sido o primeiro filósofo a desenvolver com clareza tal conceito de modernidade:
Hegel é o primeiro a alçar em problema filosófico o processo de ruptura da modernidade com os preceitos normativos (Normsuggestionen) do passado, que a contornam. Certamente, a filosofia dos tempos modernos, da escolástica tardia até Kant, no quadro de uma crítica da tradição que integra as experiências da Reforma e da Renascença e também reage aos inícios da moderna ciência da natureza, já exprime a ideia que a modernidade tem de si mesma. Mas é somente no final do século XVIII que o problema deautocertificação (Selbstvergewisserung) da modernidade toma uma forma tão aguda que Hegel pode perceber essa questão enquanto problema filosófico, e mesmo fazer dela o problema fundamental de sua filosofia (Habermas, Der philosophische Diskurs der Moderne, p. 26). [1]
No entanto, nessa reconstrução da ideia que a modernidade fazia de si mesma, Habermas reconhece, nos trechos dedicados à filosofia hegeliana, que o próprio Hegel localiza a essência do mundo moderno em Kant. Aquilo que Hegel considera como o princípio dos novos tempos teria sido extraído de uma análise da filosofia moderna, mais propriamente, da subjetividade abstrata do cogito ergo sum de Descartes e da figura da autoconsciência delineada por Kant. [2]
Convém, portanto, no exame das implicações dessa nova interpretação da problemática da modernidade, crucial para o esclarecimento do projeto filosófico de Habermas, confrontá-la com a leitura, hoje clássica, que Hegel fez dessa questão.
Hegel emprega modernidade, na acepção histórica, para designar uma época – os tempos modernos – marcada por acontecimentos decisivos como a Reforma, o Iluminismo e a Revolução Francesa. Porém, ele não se limita apenas a uma caracterização determinada por eventos históricos; preocupado em estabelecer todo o sistema das condições de vida, descortina o princípio desses novos tempos numa figura filosófica: a subjetividade. Assim, para Hegel, na modernidade tanto a vida religiosa, o Estado e a sociedade, como a ciência, a moral e a arte são modificados, enquanto manifestações, a partir do princípio da subjetividade. [3]
Em suas Lições sobre a história da filosofia, Hegel estabelece, para essa disciplina, uma tripla tarefa: (a) salientar o vínculo entre os sistemas filosóficos e o elemento histórico; (b) superar a concepção que articula os sistemas de modo fortuito, organizando-os em uma sucessão necessária; (d) demonstrar a efetividade da proposição que afirma a razão como uma potência unificadora, mostrando que todas as filosofias representam aspectos necessários de um mesmo princípio. [4]
Um dos propósitos de Hegel consiste em demonstrar que na filosofia, à semelhança da lei de Lavoisier, nada se perde, que todos os princípios se conservam, que os sistemas filosóficos produzem conceitualmente a reconciliação que o espírito absoluto almeja entre a finitude e o eterno. [5] Ao considerar a história da filosofia como um momento do movimento unitário da ideia, Hegel destaca na filosofia moderna principalmente a tematização e compreensão da unidade de pensamento e ser. Nesse sentido ele a reelabora como uma construção destinada a captar aquilo que seria o mais recôndito, isto é, o Conceito [6]:
O produto dos tempos modernos é captar essa ideia enquanto espírito, como a ideia que se sabe (sich wissende Idee). Para prosseguir da ideia que sabe para osaber-se da ideia (Sichwissen der Idee), pertencendo a uma oposição infinita, a ideia alcançou a consciência de sua absoluta cisão (Hegel, Vorlesungen über die Geschichte der Philosophie, p. 458).
A época moderna é marcada, portanto, por uma cisão entre o transitório e o eterno. Nela, a inteligência desperta para o finito, busca uma conciliação com o presente; o mundo passa, então, a ser julgado segundo seus próprios critérios, adotando a razão como árbitro. Desse modo, a subjetividade torna-se o princípio e a autoconsciência, o ponto de vista dos novos tempos. No entanto, ao tomar a reflexão como fundamento, instalando como princípio o pensamento que parte de si mesmo, a modernidade gera, por meio da contraposição entre pensar e ser, um incessante conflito entre o finito e o infinito. [7]
Descartes estabeleceu a certeza como a unidade de pensamento e ser, porém, será com Kant que o pensamento adquire plena consciência da subjetividade. Assim, segundo Hegel, no quadro geral de um progressivo reconhecimento da liberdade, a filosofia kantiana, corresponde teoricamente à Aufklärung e pode, então, ser propriamente definida como uma filosofia da subjetividade. [8]
Para Habermas, entretanto, Hegel não conseguiu resolver a questão que a modernidade se coloca, ou seja, discernir em si mesma suas próprias garantias. Atribui seu erro à tentativa de resolver o conflito entre o atual e o intemporal, tal como abordado pela modernidade filosófica, dentro dos limites de uma filosofia do sujeito. Hegel teria redefinido a razão a partir da pressuposição de um absoluto, de modo a torná-la capaz, enquanto saber absoluto, de unificar a cisão provocada na modernidade pelo princípio da subjetividade, mas, assim, não escapa das aporias de uma dialética da razão. [9]
Essa censura a Hegel, no entanto, desvenda a intenção de Habermas. Para ele, a tarefa consiste em desenvolver uma nova concepção de modernidade que, atenta ao fracasso da solução hegeliana, não mais esteja assentada sobre o princípio da subjetividade. Nessa direção, elabora as premissas de uma razão comunicacional, de uma teoria da intersubjetividade que imagina apta a superar o paradigma da filosofia da consciência. [10]
Não parece descabido, portanto, concluir que a controvérsia sobre o lugar da filosofia kantiana na modernidade não pode ser dissociado das divergências insuperáveis acerca das determinações do próprio conceito de modernidade. Quando Habermas nega ao princípio da subjetividade e à estrutura da autoconsciência a capacidade de satisfazer a necessidade, da modernidade, de orientações normativas, o faz, a partir de outra definição de modernidade. Assim, se a principal contribuição de Kant, a compreensão da estrutura da subjetividade, deixa de ser – na ótica de Habermas – marco divisório dos tempos modernos, como estabelecera Hegel, é porque se pensa os tempos modernos, em outro perfil, privilegiando o movimento de busca de seus fundamentos. [11]
Isso não significa que Habermas relegue Kant completamente. O que ele releva, no entanto, são aspectos outrora desvalorizados como a concepção kantiana de uma razão mitigada. O mérito de Kant teria sido, então, de não ter experimentado como cisões as diferenciações que cindiram a razão, assim como, as articulações formais que intervém na cultura e na divisão em esferas. Ao substituir o conceito substancial de razão, por uma concepção onde a razão possui uma unidade apenas formal, Kant teria permitido a cada domínio, a cada esfera estabelecer fundamentos próprios.

[1] Cf. também Habermas, op. cit., p. 13 e 57. Para Habermas, a importância de Hegel advém não só de ser o primeiro filósofo a tomar consciência do problema da modernidade, mas principalmente porque é a partir da solução dada por sua filosofia a essa questão que podemos situar os seus sucessores. Ampliando o escopo e reatualizando a classificação de Löwith entre velhos hegelianos, jovens hegelianos e neohegelianos (Cf. Löwith, Von Kant zu Nietzsche, p. 65-152) a divisão habermasiana entre jovens hegelianos, neo-conservadores e jovens conservadores abrange desde a imediata posteridade a Hegel até a filosofia contemporânea. Para uma tipologia baseada nos mesmos pressuposto e, no entanto, distinta, cf. Habermas, Modernidade versus pós-modernidade, p. 90-1.
[2] Cf. Habermas, op. cit., p. 29.
[3] Cf. Hegel, Grundlinien der Philosophie des Rechts, parágrafo 124.
Habermas distingue, no termo subjetividade, quatro conotações: “[...] (a) individualismo: no mundo moderno as individualidades (peculiaridades)(Eigentumlichkeit) infinitamente particulares podem fazer valer suas pretensões; (b) direito à crítica: o princípio do mundo moderno exige que aquilo que cada um deve reconhecer lhe apareça como algo justificado; (c) autonomia da ação: é próprio dos tempos modernos querer estar de acordo com aquilo que fazemos; (d) finalmente, a própria filosofia idealista:Hegel considera como o produto dos tempos modernos que a filosofia atinja o saber de si da ideia” (Habermas, Der philosophische Diskurs der Moderne, p. 27).
[4] Cf. Hegel, Vorlesungen über die Geschichte der Philosophie, p. 461.
[5] Hegel pensa a filosofia nos termos de uma consumação. A meta da construção hegeliana do movimento dialético do espírito como algo imerso no elemento da história é o saber absoluto. Assim, no mundo moderno, o princípio da subjetividade penetra na realidade e a reconciliação adquire a sua efetividade enquanto espírito. No entanto, quando o espírito alcança seu pleno ser e saber, isto é, a autoconsciência, consuma a sua história (cf. Löwith, op. cit., p. 52-58).
[6] Cf. Hegel, op. cit., p. 69, 266-7 e 314.
[7] Para Hegel, as filosofias da reflexão separam o infinito do finito e tornam inconcebível a sua unidade. O infinito por ela proposto, na realidade, é algo finito, pois o que se erige em absoluto é apenas a reflexão ou o entendimento (cf. Hyppolite, Introdução à filosofia da história de Hegel, p. 68-70. Hegel resolve a oposição abstrata entre finito e infinito com a criação de um sujeito absoluto, isto é, pela “[...] auto-relação absoluta de um sujeito que acede de sua substância à autoconsciência, portando em si tanto a unidade como a diferença do finito e do infinito” (Habermas, op. cit., p. 46).
[8] A filosofia kantiana é, portanto, para Hegel, um ponto fundamental na sua visada do conjunto da modernidade. Desse modo, não causará espanto que Hegel defina o interesse da filosofia moderna em termos bastante próximos aos do “giro copernicano”: “[...] o interesse principal, por isso, não é tanto pensar os objetos em sua verdade, mas sim pensar a própria unidade entre o pensar e a compreensão dos objetos, unidade esta que é o tornar-se consciente (Bewusstwerden) de um pressuposto objeto” (Hegel, Vorlesungen über die Geschichte der Philosophie, p. 63).
[9] Sobre as aporias da solução hegeliana cf. Habermas, op. cit., p. 33-58. A aporia central, detectada por Habermas, é a seguinte: ao fundar a sua posição sobre o conceito de saber absoluto, Hegel se vê forçado a abdicar, em sua definição de modernidade, da própria possibilidade de uma crítica da modernidade, logo, de uma crítica da atualidade (Id., ibidem, p. 55-57).
[10] Cf. Habermas, p. 344-445; para a ultrapassagem da filosofia do sujeito cf. especialmente as pp. 361-2, 432-3 e 444-5.
[11] Habermas não descarta completamente a subjetividade. O que ele visa, mais propriamente, é uma reapropriação e transformação do conceito reflexivo de razão desenvolvido pela filosofia do sujeito (cf. Habermas, op. cit., p. 42).
Ricardo Musse é professor no departamento de sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo. Doutor em filosofia pela USP (1998) e mestre em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1992). Atualmente, integra o Laboratório de Estudos Marxistas da USP (LEMARX-USP) e colabora para a revista Margem Esquerda: ensaios marxistas, publicação da Boitempo Editorial. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas.

Membros do Poética Pragmática publicam textos sobre Mangabeira Unger e Max Stirner no periódico Ideação


O Professor Dr. José Crisóstomo de Souza (UFBA), coordenador do Grupo Poética Pragmática, e o Professor Rodrigo Ornelas (UFRB) acabam de publicar dois interessantes textos no último número da revista Ideação - periódico da Universidade Estadual de Feira de Santana. 

O prof. Crisóstomo resenha o pensamento de Roberto Mangabeira Unger, tomando por fio condutor o livro The Self Awakened: Pragmatism Unbound. Confiram um trecho: 

"Em comparação com outras formulações contemporâneas do pragmatismo, a de Roberto Unger — original, nada ortodoxa — de fato recupera e radicaliza seu sentido prático— criador, futurista, e sua vocação democrática-experimentalista (assumidos entre nós, na educação, pelo pragmatista Anísio Teixeira).

Ao mesmo tempo, para isso, a elaboração de Unger, a meu ver, acentua tremendamente a filiação hegeliana que o pragmatismo em boa medida já traz, mais claramente
em John Dewey e George Mead. Com uma filosofia que incorpora ingredientes encontráveis em hegelianos de esquerda como Karl Marx, Max Stirner e particulamente Bruno Bauer, e que comporta ainda ressonâncias nietzschianas, é curioso ver Unger retomar no século XXI a noção hegeliana
de autoconsciência bem como a dialética dissolvedora/reapropriadora que opõe a livre iniciativa prático-transformativa dos homens às estruturas “naturalizadas” e “congeladas” — da sociedade, da política e do pensamento, até aqui.  De qualquer modo, para seus propósitos teóricos e práticos, Unger foi mesmo bater na porta filosófica certa, conseguindo, por aquela via jovem hegeliana, renovar, à sua maneira, as
opções e concepções da esquerda, há tempos paralisada entre democracia liberal tradicional e marxismo como “linguagem única” da crítica e da mudança"


O trabalho de Rodrigo consiste num interessante artigo que expressa parte da polêmica entre Max Stirner e Bruno Bauer no contexto da críticas stineriana ao liberalismo. Rodrigo escreve:

"Stirner compartilha da posição “liberal” baueriana – ainda que, entretanto, uma mudança possa ser notada nos próprios textos. Mas uma ruptura efetiva só é levada a cabo n’O Único. Aqui, a “liberdade” baueriana, apesar de radical, ainda é, para Stirner, condicionada, posta  para mim, enquanto deve ser posta  por mim para mim: eu sou a medida de todas as coisas, inclusive da minha liberdade; quando me assumo (eu, único, egoísta) já sou livre. O que sobrou da liberdade baueriana em Stirner — a liberdade stirneriana, se assim posso chamá-la — é melhor entendida como autonomia, e não num sentido racionalista, mas como autenticidade, “auto-criação”, como um reconciliar-se consigo mesmo, um vir para si."


 Ambos os textos podem ser lidos na íntegra através do link:



Boa leitura!

Obs.: Em edição anterior do mesmo periódico também tivemos textos de dois outros membros do Poética Pragmática: A crítica da reificação do pensamento em Max Stirner: da Razão ao Ser-Próprio, do professor Hilton Leal (IFBA), e Anti-representacionismo e Realismo, do professor Tiago Medeiros (FJC). Link para a versão eletrônica dessa edição: http://www.uefs.br/nef/21.pdf

Curso de introdução à filosofia pela University of Edinburgh

A University de Edinburgh está oferecendo um curso de Introdução à filosofia gratuito. Abaixo informações sobre o curso e o link para acesso.


About the Course

This course will introduce you to some of the main areas of research in contemporary philosophy. Each week a different philosopher will talk you through some of the most important questions and issues in their area of expertise. We’ll begin by trying to understand what philosophy is – what are its characteristic aims and methods, and how does it differ from other subjects? Then we’ll spend the rest of the course gaining an introductory overview of several different areas of philosophy. Topics you’ll learn about will include:

  • Epistemology, where we’ll consider what our knowledge of the world and ourselves consists in, and how we come to have it;
  • Philosophy of science, where we’ll investigate foundational conceptual issues in scientific research and practice;
  • Philosophy of Mind, where we’ll ask questions about what it means for something to have a mind, and how minds should be understood and explained;
  • Moral Philosophy, where we’ll attempt to understand the nature of our moral judgements and reactions – whether they aim at some objective moral truth, or are mere personal or cultural preferences, and;
  • Metaphysics, where we’ll think through some fundamental conceptual questions about the nature of reality

Roberto Mangabeira Unger no Roda Viva


Tiago Medeiros


Na última segunda-feira (16/07), o filósofo brasileiro Roberto Mangabeira Unger foi o convidado entrevistado do programa Roda Viva da TVE. Professor de Harvard, autor de diversos livros (em áreas que vão da economia à filosofia), ex-Ministro de Estado e militante político há décadas, o filósofo respondeu a questões sobre assuntos diversos, dentro do universo da política no Brasil e nos EUA e de seu pensamento teórico-prático. Destacarei abaixo algumas das respostas dadas pelo professor no programa.
Em linhas gerais, Unger defende uma posição teórica que se centra no descongelamento das formas de vida na cultura, pela ação política sobre o conteúdo das instituições. Entende que as organizações e crenças que formam os indivíduos são por eles constantemente postas em cheque no curso de suas vidas, e, portanto, que a vocação autotransformadora dos sujeitos deve ser o leitmotiv da ação política -  depositando sobre as instituições o espírito de inovação que alterará a vida pública dos indivíduos e garantirá oportunidades para a maior parte das pessoas. Essa linha de pensamento, que o autor garante ser de esquerda (embora não marxista), é pouco compreendida entre muitos intelectuais e jornalistas (sobretudo, no Brasil, onde seu sotaque estrangeirado pesa muito mais do que a originalidade de suas ideias), o que justifica o perfil das perguntas feitas no debate.
Sobre a política americana, Unger acredita que o presidente Obama deve ser derrotado nas próximas eleições sob pena de não se oportunizar uma reestruturação do Partido Democrata. Obama, a seu ver, não conduziu o país corretamente em face das transformações que a crise econômica despontou, deixando de alargar as oportunidades para a maioria trabalhadora. Sua gestão, pensa Unger - que, como todos sabem, já foi professor do atual presidente americano (numa disciplina de título Democracy realized) - oscilou no interior de iniciativas que nada difere das do partido republicano.
No Brasil, Unger entende que não houve, ainda, a definição de um projeto que reorganize o estado e as instituições. Por isso, a seu ver, é preciso um choque de novas ideias, considerando, ademais, que maior oposição partidária do país – PT e PSDB – reside, na verdade, na coparticipação de um mesmo ideário, cujo conteúdo é a atenuação dos resíduos de uma economia de mercado não regulada sobre as camadas não endinheiradas da população, por meio de políticas sociais de redistribuição compensatória. A esse ideário partilhado por tucanos e petistas, o autor denomina Suécia Tropical.
Tocando no tema de sua participação como Ministro de Assuntos Estratégicos, apresentou a construção de seu projeto para as três regiões não contempladas historicamente pela união: Nordeste, Centro-Oeste e Norte, para as quais um conjunto de ações no campo da educação e das relação entre trabalho e capital haviam sido formuladas e boa parte executadas. A respeito do primeiro campo, defende a substituição de um paradigma pedagógico enciclopédico para um ensino analítico e capacitador que se aplique com vigor na escola média. Sobre o segundo campo, Unger costuma defender para o Brasil e para o mundo uma inovação institucional da economia de mercado que a democratize, proporcionando, conquanto, o aprofundamento da própria democracia, através de iniciativas que canalizem a poupança para a produção.
O autor tem grande lucidez acerca do impacto de ideias sobre as práticas na cultura. O modelo de pensamento que chama de social democrata, que se autoproclama realista, e contra o qual o declara guerra, é o responsável pela ineficiência da ação política em diversos terrenos. Unger exemplifica com a política industrial. A ação do Estado é comumente a de promover fusões entre grandes empresas, com o dinheiro arrecadado pelo contribuinte, sob o pretexto de torna-las campeãs mundiais – esperando que a geração de empregos seja a contraparte social para as massas. A implicação disso, continua o exemplo, é que os oligopólios financiados pelo estado degolam os pequenos e médios empreendedores cuja vocação econômica Unger qualifica por energética, para os quais uma ação de instrumentalização do estado seria a verdadeira política industrial. Há no Brasil uma massa de pequenos empreendedores em todas as regiões que é abafada pela política industrial, em vez de qualificada pelo Estado. A justificativa, que liga esse exemplo ao realismo frio do pensamento social democrata, é que no mercado sobrevivem as grandes empresas e que, portanto, se os governos alinharem-se às grandes corporações o benefício social e o marketing político serão compensados.
Não só por ter notório reconhecimento mundial Unger merece ser ouvido e lido. Sua obra é atual, instigante, viva. Ainda que para dela discordar é fundamental que seja percorrida com a intensidade que sua escrita (e sua fala) encarna(m). Tanto do ponto de vista filosófico, menos explorado no programa, quanto do político, teórico-social, jurídico e econômico, suas ideias apresentam chaves extremamente novas com as quais diagnósticos e prognósticos podem ser feitos. Essa entrevista é um convite ao seu pensamento.

Abaixo o link para a entrevista completa:


Você está convidado a deixar seu comentário – breve ou superficial que seja – a qualquer dos textos.