As instituições e a garantia da liberdade e igualdade - Dr. Genildo Ferreira da Silva (UFBA)


As instituições e a garantia da liberdade e igualdade
Dr. Genildo Ferreira da Silva (UFBA)

   Para compreender o Estado dentro das premissas colocadas por Rousseau, é imprescindível entender que tal estado decorre do pacto estabelecido entre os seus membros e esses devem criar obrigações mútuas e, certamente, a base desse pacto deve estar fundada na vontade geral. Quando Rousseau aponta que o surgimento da sociedade civil se dá com a invenção da propriedade e que essa só trouxe crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores ao gênero humano, não se deve considerar que devemos tomar necessariamente a propriedade como primeira instituição social, mas sim, como a mais funesta dentre
todas elas, e certamente a que mais trouxe desigualdades. Entretanto, no Projeto de constituição para a Córsega, encontra-se uma defesa clara do sentido social da propriedade. De fato, existe uma certa obscuridade sobre as críticas que o genebrino faz às instituições, principalmente a família, o trabalho e a propriedade. Se as instituições são denunciadas como responsáveis pela cisão entre os homens, Rousseau trata as instituições como a possibilidade para se encontrar uma saída para a organização da sociedade, pois “aquele que ousa empreender a instituição de um povo deve sentir-se com capacidade para mudar a natureza humana”. Jean-Jacques aponta que para se alcançar a mais sólida e perfeita instituição, a ordem do estado deve basear-se na educação que pode levar os cidadãos a desenvolverem atitudes voltadas para a vida em comum, permitindo assim que o espírito social que deve ser obra da instituição presida a própria instituição.


Habermas e a reconstrução do materialismo histórico - Laiz Fraga


Habermas e a reconstrução do materialismo histórico
Laiz Fraga

Resumo: Em "Para Reconstrução do Materialismo Histórico" Habermas propõe uma releitura da concepção marxista da história de modo a promover ligações desta com a sua concepção de agir comunicativo. A formulação marxista da história, que é fundada em uma ideia de práxis instrumental (expressa no conceito de trabalho de Marx), propõe que a história do gênero seja tratada indissociavelmente com a história das forças produtivas. Para Habermas, a concepção de práxis proposta por Marx não é suficientemente abrangente para caracterizar as mudanças na estrutura social ao longo da história. Segundo o autor, o conceito de trabalho se refere ao saber empírico tecnicamente utilizável ligado ao desenvolvimento das forças produtivas, porém, não considera de forma satisfatória a interação intersubjetiva. Essa esfera da ação estaria elucidada de forma eficiente em sua ideia de ação comunicativa, que considera os expedientes da interação comunicativa na esfera das relações interpessoais. Para o autor, essa esfera da ação tem papel decisivo no desenvolvimento da história. Desse modo, Habermas pretende oferecer uma compreensão da história a partir do processo de aprendizado social – aspecto deixado de lado pelos marxistas que desenvolveram uma ideia de história pautada na ação instrumental. Esse trabalho pretende tratar do materialismo histórico (como foi exposto por Habermas) a partir da crítica aos conceitos de trabalho social e história do gênero marxista, bem como a contribuição oferecida pelo autor à teoria marxista a partir de sua ideia de agir comunicativo.

A apropriação como crítica ao essencialismo, em Max Stirner - Rodrigo Ornelas

A apropriação como crítica ao essencialismo, em Max Stirner
Rodrigo Ornelas


Resumo: Em sua mais importante e conhecida obra, O Único e sua Propriedade, um dos principais representantes do hegelianismo de esquerda, Max Stirner apresenta a mais radical crítica à modernidade entre seus contemporâneos, chegando a caracterizar, para alguns comentadores, a derrocada do próprio movimento jovem hegeliano. O princípio básico dessa crítica era a denúncia da alienação do indivíduo particular a uma ideia, ou entidade qualquer, que se pretenda superior a ele, e que se põe entre ele e o mundo, como mediação, ou seja, precisamente, uma essência. Na modernidade – segundo ele, inaugurada pelo cristianismo, uma vez que com o cristianismo consolidamos a noção de que por trás do mundo material nos encontramos como Espírito – nossa essência assumiu diversas formas, desde Deus até chegar ao seu avatar moderno, o Homem (ou a humanidade). Stirner, então, acrescenta que, do mesmo modo que antes, nos descobrimos por detrás das coisas como espírito, também mais tarde nos encontraremos por detrás das ideias como indivíduo (particular e único). Mas não apenas isso: encontramo-nos precisamente como seu criador e, portanto, proprietário (Eigner). O proprietário é a característica do único (Einziger) que consideraremos como a contrapartida de Stirner ao essencialismo, pois é a inversão dos fatores de sua definição: aquele que era propriedade da Ideia revolta-se e toma-a como sua propriedade. Desse modo, desenvolvo nesse texto a relação crítica entre a atitude de apropriação do mundo pelo indivíduo e a alienação desse indivíduo na filosofia, dentro da crítica stirneriana.

A razão e a verdade salvas pelas luzes: um confronto intelectual entre Habermas e Foucault - Marcos Vinícius Paim da Silva


A razão e a verdade salvas pelas luzes: um confronto intelectual entre Habermas e
Foucault
Marcos Vinícius Paim da Silva

Resumo: Algumas novas leituras têm movido a perspectiva de um diálogo entre as
ideias político-filosóficas de Jürgen Habermas e Michel Foucault. Parte delas opondo-
se a esta relação e outras tentando evidenciar uma possibilidade de discussões em
que Habermas havia obtido uma insuficiente compreensão do projeto foucaultiano. A
nosso ver ambas são válidas, já nos adiantando em nossa proposta, pois contribuem
para uma melhor compreensão do nosso atual presente político, já que estes filósofos
empreenderam comumente uma análise ao “projeto da modernidade”. Habermas como
um defensor e Foucault, entre outros pensadores considerados pós-modernos, como um
crítico. Com isso, estes dois filósofos possuem cada um a seu termo, uma significativa
produção intelectual, responsável por nos colocar diante de discussões e problemáticas
políticas, culturais e sociais das atuais sociedades modernas que nos movem como
sujeitos, à melhor nos entendermos nelas. Levaremos em consideração as noções de
razão e verdade e das suas relações com o poder, foco das críticas feitas por Habermas
à Foucault. Contudo, nos propomos a mostrar o quanto estas críticas são minadas, pelo
próprio pensamento foucaultiano, na medida em que o texto de Foucault O que são
as Luzes?, nos conduz aos verdadeiros propósitos deste autor no que diz respeito a
estas duas clássicas noções do pensamento filosófico. Neste sentido, é com um olhar
detido sobre o ideal iluminista abarcado por Foucault neste texto que tomamos como
referência, que encontramos a possibilidade de perceber o quanto inconsistentes se
mostram as criticas habermasianas. A própria obra de Foucault, toda ela, a nosso ver,
já se constitui como resposta clara e explícita para muitas das distorcidas interpretações
que em seu entorno sempre se tentou realizar.

Doutorando em Filosofia e Teoria Social pela Universidade Federal da Bahia – UFBA.
E-mail: vinipaim@yahoo.com.br


Série ANPOF 2012


Em uma série de postagens o grupo Poética Pragmática divulgará os resumos dos membros do grupo aprovados para a XV Encontro Nacional da ANPOF, que será realizado no período de 22 a 26 de outubro de 2012, na cidade de Curitiba, Paraná.


"Tradicionalmente a ANPOF realiza, a cada dois anos, Encontros Nacionais de Filosofia reunindo os mais expressivos pesquisadores em Filosofia de todo o país e, nos últimos anos, tem contado também com a participação de professores e pesquisadores estrangeiros."
Mais informações: www.anpof.org.br

XXXII Encontros Nietzsche: Verdade e linguagem



XXXII Encontros Nietzsche: Verdade e linguagem
17 e 18 de maio
Auditório da FFCH-UFBA, no Pavilhão Raul Seixas, em São Lázaro
Programação
17 de maio
10h. Conferência de abertura
Maria Filomena Molder
Fazer de si próprio uma experiência - uma leitura do "Prefácio” a Humano, demasiado humano
14h Mesa-redonda.
Márcio José Silveira Lima. Lógica e Retórica no jovem Nietzsche
Jarlee Salviano. Schopenhauer como educador: presenças da filosofia schopenhaueriana no jovem Nietzsche
Ivo da Silva Jr. A semiótica dos afetos: Nietzsche e a questão da linguagem
16h. Conferência
Antônio Marques
A natureza pluridimensional da linguagem segundo Nietzsche e Wittgenstein
18 de Maio 
8:30h Mesa Redonda
Wilson Antônio Frezzatti. Verdade e Sociedade: algumas considerações sobre Nietzsche e Montaigne
André Luís Mota Itaparica. Nietzsche: Crítica à metafísica como crítica à linguagem
Emmanuel Salanskis. Grammaire et métaphysique dans la critique du language du dernier Nietzsche
10:30h. Conferência de encerramento
Scarlett Marton
O problema da linguagem em Nietzsche. A crítica enquanto criação 
Realização: Grupo de Estudos Nietzsche (GEN/USP); PET-Humanidades (UFBA); PET-Filosofia (UFBA) 
Apoio: FAPESB; FFCH-UFBA

ENTREVISTA: Cortina de fumaça - Caetano fugiu do tema, diz Schwarz


RESUMO: Em resposta à entrevista concedida por Caetano Veloso na "Ilustríssima" do último domingo, o crítico literário Roberto Schwarz diz que não escreveu seu ensaio sobre "Verdade Tropical" "para pegar em Caetano o rótulo de direitista, e muito menos de esquerdista, mas de herói representativo e problemático".

FLÁVIO MOURA
   "ELE MUDOU DE assunto. Parece piada." Para o crítico Roberto Schwarz, a entrevista de Caetano Veloso publicada na "Ilustríssima" de 15/4 não entra no mérito dos argumentos de seu ensaio sobre "Verdade Tropical" (1997), volume de memórias do compositor. O texto, inédito, faz parte da coletânea recém-lançada "Martinha versus Lucrécia" [Companhia das Letras, 320 págs., R$ 44].
   Caetano criticou Schwarz e Marilena Chaui:"Por que nunca têm nada a dizer sobre o que se passa na Coreia do Norte?". Schwarz rebate: "O interesse pela Coreia do Norte é sobretudo cortina de fumaça para não falar de meu livro."
   Certa vez, num evento, perguntaram a Schwarz quando sairia o texto sobre Caetano. Ele disse: "É demorado, pois é preciso ver muitas coisas de muitos lados diferentes". O ensaio cumpre a promessa.
   Schwarz é generoso com a obra do compositor: brilhantismo, inteligência, complexidade dialética, sensibilidade -não faltam conotações positivas à condução do argumento. É raro que uma obra literária recente receba escrutínio tão minucioso. Nesse sentido, não está em discussão apenas a vitalidade de "Verdade Tropical", mas da crítica literária produzida hoje.
   O livro também traz dois textos que avançam na interpretação sobre Machado de Assis, tema que domina sua obra. Num deles, cujo argumento se desenrola a partir de uma crônica, "O Punhal de Martinha", o ensaísta reivindica que a universalidade de Machado seja buscada na matéria local brasileira, e não em sua superação, como quer parte da crítica estrangeira.
   Leia a íntegra da entrevista, concedida por e-mail, em que Schwarz comenta a resposta de Caetano a seu ensaio e fala de outros textos do livro, como a resposta ao crítico Alfredo Bosi sobre as "Ideias Fora do Lugar", célebre ensaio de 1973.



Folha - Como leu a entrevista de Caetano?
Roberto Schwarz
   Ele mudou de assunto. Em vez de comentar o meu artigo, que é o que estava em pauta, Caetano falou da Coreia do Norte, da União Soviética, de Cuba, da USP, da esquerda obtusa, de Mangabeira Unger etc. Parece piada.
   Ao contrário do que a entrevista faz supor, não escrevi para pegar em Caetano o rótulo de direitista, e muito menos de esquerdista, mas de herói representativo e problemático. Procurei acompanhar de perto a sua prosa, concatenar e compactar as suas posições, de modo a tornar visíveis as questões de fundo que estão lá e não são óbvias. Tomei o cuidado de sempre apresentar as próprias formulações de Caetano, para que o leitor possa refletir a respeito e tirar conclusões com independência. É o que [Bertolt] Brecht chamava de apresentar os materiais.
   Como crítico literário, sou sensível à força estética do livro, naturalmente para analisá-la. No caso, fazem parte inseparável dela as atitudes mais controvertidas do autor, tais como a autoindulgência desmedida, o confusionismo calculado e os momentos de complacência com a ditadura (os militares tomaram o poder "executando um gesto exigido pela necessidade de perpetuar essas desigualdades que têm se mostrado o único modo de a economia brasileira funcionar", "Verdade Tropical", pág. 15), o que não exclui a simpatia pela guerrilha.
   É ler para crer. À maneira dos romances narrados em espírito de provocação -por exemplo, as "Memórias Póstumas de Brás Cubas"- "Verdade Tropical" deve muito de seu interesse literário a certa desfaçatez camaleônica em que Caetano, o seu narrador, é mestre. Penso não forçar a mão dizendo que a representatividade histórica do livro passa por aí. E o seu caráter problemático também, já que o quase romance não deixa de ser um depoimento.

O sr. vê fundamento na cobrança de Caetano de que a esquerda comente temas como a Coreia do Norte?
   É claro que a reflexão informada e crítica sobre as experiências do "socialismo real" é indispensável à esquerda, e aliás ela existe. [Theodor] Adorno, que Caetano absurdamente menciona como inimigo da liberdade, é uma grande figura dessa reflexão no campo estético. Dito isso, penso que, no caso, o interesse pela Coreia do Norte é sobretudo cortina de fumaça para não falar de meu livro.

Por que o ensaio vem à tona 15 anos depois do livro de Caetano?
   Logo que o livro saiu, vi que era notável à sua maneira e merecia discussão. Como não tenho pressa, levei 15 anos para sentar e escrever. Ainda assim, espero não ter perdido o bonde.

Em que medida o texto aprofunda os argumentos sobre a Tropicália expostos em seu ensaio "Cultura e Política: 1964-1969"?
   "Cultura e Política" foi escrito em 1969, na hora pior da ditadura e logo após a eclosão da Tropicália. "Verdade Tropical", de Caetano, que reapresenta aqueles tempos, foi publicado 30 anos depois, em pleno triunfo neoliberal. Já "Um Percurso de Nosso Tempo", redigido em 2011, tem a ver com a crise atual do capitalismo. São três momentos distintos.
   A Tropicália do fim dos anos 60 debochava -valentemente- do Brasil pós-golpe, quando a ditadura buscava conjugar a modernização capitalista ao universo retrógrado de "tradição, família e propriedade". A fórmula artística dos tropicalistas, muito bem achada, que juntava formas supermodernas e internacionais a matérias ligadas ao atraso do país patriarcal, era uma paródia desse impasse. Ela alegorizava a incapacidade do Brasil de se modernizar de maneira socialmente coerente.
   Era uma visão crítica, bastante desesperada, de muito interesse artístico, à qual se misturava certa euforia com a nova indústria cultural, que estava nascendo. Ao retomar o assunto em 1997, nos anos FHC, Caetano atenuou o anterior aspecto negativo ou crítico e deu mais realce ao encanto dos absurdos sociais brasileiros, tão "nossos". Um tropicalismo quase ufanista e algo edificante.
   No ensaio procurei acompanhar e discutir estes deslocamentos.

Qual a diferença entre fazer crítica dialética hoje e nos anos 1960-70?
   A crise atual -de que não estamos tomando muito conhecimento no Brasil- veio precedida pela derrota das tentativas práticas bem como das ideias da esquerda. Assim, não faltam contradições agudas, mas elas parecem não apontar para lugar nenhum, ou só para mais do mesmo.
   A crítica dialética naturalmente não pode fingir que sabe uma resposta, mas não tem por que acatar como positiva uma realidade que é evidentemente negativa, nem tem por que renunciar à busca de superações. As contradições estão aí, fermentando.

Não é uma novidade auspiciosa que o Brasil possa não tomar muito conhecimento da crise atual?
   Desconhecer uma crise mundial, só porque ela não está nos tocando no momento, é sempre uma ignorância, sobretudo para intelectuais.

No livro há uma conferência feita em 2009 sobre "As Ideias Fora do Lugar" (1973) e uma nota de resposta a um questionamento à tese feita por Alfredo Bosi. A que o sr. atribui essa longevidade?
   Suponho que ela se deva à existência real do problema, que surgiu com a Independência, no século 19, e até hoje teima em não desaparecer. A uns, as ideias dos países centrais, que nos servem de modelo, parecem o remédio para todos os males; a outros, uma importação postiça e "fora do lugar", que precisa ser recusada -o que os condena a perder o contato com o pensamento do mundo contemporâneo.
   Como entender a questão? Procurei comentá-la e sobretudo esclarecer os mal-entendidos ligados a esse título de ensaio, que teve sorte e ficou conhecido, mas causou bastante confusão.


O título do livro alude ao ensaio sobre a recepção da obra de Machado de Assis no exterior, no qual o sr. busca mostrar como a "universalidade" do autor está na finura com que ele lida com a matéria local.
   É essa a questão que tentei estudar. O reconhecimento de Machado no estrangeiro é crescente e não precisou da reflexão sobre o Brasil para ocorrer. O escritor entrou para o cânon dos grandes do Ocidente, onde ocupa um lugar diferenciado, sem necessitar da referência a seu país.
   Ao passo que no Brasil se formou uma tradição crítica para a qual Machado é extraordinário justamente porque soube inventar uma forma adequada à nossa peculiaridade histórica e social. São explicações opostas para a grandeza de um mesmo escritor.
   Como entender essa diferença? Quais as suas implicações? São os problemas que meu ensaio explora, examinando de mais perto e politizando a oposição clássica entre o local e o universal, agora recolocada em termos da ordem mundial contemporânea.

O sr. não parte dos romances, como seria de esperar, mas da crônica machadiana. Vai nisso alguma intenção particular?
   De fato, há uma crônica, "O Punhal de Martinha", em que Machado dramatiza a questão do local e do universal com uma graça notável, antecipando cem anos de debate crítico. Procurei analisá-la com cuidado igual ao que merecem os grandes romances e penso que o resultado surpreende.
   Aí está, no plano modesto da crônica, uma variante do narrador das obras-primas machadianas, dilacerado entre a irradiação da Europa e os cafundós do Brasil, que aliás podem estar na capital. Trata-se de um mal-estar característico, ou, também, do despeito histórico mundial das elites progressistas de um país periférico. Por inesperado que isso seja, o ar de família com os manifestos modernistas de Oswald e com o clima do tropicalismo salta aos olhos.

Em entrevista de 2011, Antonio Candido afirmou que a crítica literária acadêmica se tornou uma atividade sem riscos, com a nova geração se dedicando apenas a autores consagrados. O sr. concorda?
   Se entendi bem, ele estaria valorizando o momento de risco intelectual, de escolha a descoberto, sem o qual a crítica literária se rotiniza ou reduz ao informe publicitário. Mas posso ter entendido mal.

O seu livro é uma coletânea de ensaios circunstanciais, mas há bastante unidade entre eles, que parecem concebidos dentro de um mesmo propósito. É deliberado?
   Agradeço a pergunta. É claro que os ensaios têm assunto, origem e forma muito diversa. Mas há a matéria brasileira em comum, com sua estrutura que atravessa os tempos e acaba determinando um conjunto de questões consistentes, retomadas e variadas nos diferentes trabalhos e sugerindo aprofundamentos que valeria a pena perseguir. Para mim mesmo, as correspondências entre a crônica machadiana, a poesia minimalista de Francisco Alvim, a visão pau-brasil e as montagens tropicalistas, por exemplo, vieram como uma surpresa.
   Noutro plano, os ensaios fazem ver uma coleção de percursos intelectuais e artísticos de nosso tempo, em contraste muitas vezes agudo, cujo conjunto convida a pensar. Aos pedaços, são contribuições para o autoexame de uma geração.




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